Devaneios

Marley e eu

Desde que eu me entendo por gente tenho medo de animais. Sempre que via um cachorro na rua eu agarrava no braço da minha mãe, queria pular no colo dela e ao mesmo tempo desejava sair correndo. Eu achava que ele morderia a minha jugular e eu morreria em questão de instantes.

Isso sempre valeu para cachorros, gatos, galinhas, pintinhos, vacas, bois, carneiros e tudo. Se respirava e se mexia, eu tinha medo. O único animal ‘tranquilo’ pra mim era o peixe. Já tive alguns cachorros. Lembro de ter uma poodle chamada Xuxa. Eu gostava de admirá-la à distância, quando ela chegava perto de mim eu saia correndo e subia em cima da pia. Por mais lindinha que ela fosse, eu achava que ela me mataria. Um dia, o vizinho a roubou. Sabíamos que ela era ela, mas não podíamos fazer nada porque esse cara era metido a bandido. Ficamos com medo. Fiquei triste, mas a tristeza foi por perder meu bichinho fofinho. Minha musa. Minha admiração. E não a minha amiga.

Depois tive o Thydô. Ele era um pinscher sapeca. Adorava pular e passear na rua. Por diversas vezes ele fugia de casa. Numa dessas fugidas ele acabou sendo atropelado. Meus pais não me deixaram ver o corpinho. O enterraram e pronto. Fiquei sentido falta, mas não senti por mais do que meia hora. Eu sei, às vezes acho que não tenho sentimentos. Acho que sou um monstro. Todo mundo diz ‘quem não gosta de animais, não é bom sujeito’. Eu nunca consegui me conectar com animais. Será que sou uma pessoa ruim? Eu sei que não sou, mas sabia que tinha algo de errado comigo.

Os anos se passaram e a minha família enfrentou uma situação muito difícil por muitos anos. Já não sabíamos o que fazer quando surgiu uma ideia. “Vamos comprar um cachorro?” Queríamos que a minha irmãzinha se animasse. Era uma tentativa de deixá-la feliz. Um recomeço. Foi assim que fomos à Feira dos Importados e vimos aquela bolinha gostosa. Era um labrador caramelo. Não tínhamos dúvidas, ele seria o nosso Scott. E foi assim que ele chegou na casa dos Rodrigues. Nos seus primeiros três meses de vida, ele mordeu a mãe de uma amiga minha e me matou de vergonha. Saiu sangue e tudo. Ele sempre comeu nossas chinelas, já pulou do carro em movimento, já comeu roupa e sempre fez a maior bagunça. Nunca, nunca, nunca tive medo dele. Hoje ele é gigante. E bravo que só. Dia 10 de abril ele completará seis anos.

O problema é que toda essa danadice está indo embora. O Scott adquiriu erliquiose, a doença do carrapato. Ele parou de comer, começou a vomitar, a ter dor de barriga, ficou triste e parou de andar. As duas patas traseiras paralisaram. Me dói ver aquele cachorro sapeca se arrastar pela garagem e fazer xixi e cocô nele mesmo. O choro dele me parte o coração. O levamos para o hospital, ele passou um dia inteiro internado e agora está fazendo o tratamento em casa. Hoje completa uma semana que ele está tomando antibiótico e não conseguimos observar uma melhora nele. É inevitável pensar que ele pode nos deixar a qualquer momento. O Scott trouxe a alegria de volta pra casa. No momento de dor, ele foi o sorriso. Por que o Scott é diferente da Xuxa e do Thydô? Ele tocou o meu coração e me fez amá-lo. Eu gostava dos outros cachorrinhos , mas criava uma barreira de proteção. Sabia que eles iriam embora um dia e não me deixava ser tocada por eles. Eles eram como visitas para mim. O Scott é família.

Finalmente, eu descobri que não sou uma pessoa ruim. Apenas crio bloqueio e barreiras para que ninguém me deixe ligada sentimentalmente. Percebi que faço isso nas minhas relações amorosas, de amizade, e fazia isso com os animaizinhos. Tenho medo da perda. E agora choro todos os dias porque sei que ela está chegando.

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